10.21.2005

Esperas

Sou uma pessoa muito observadora.

Não só o faço inconscientemente como também por vezes me dedico verdadeiramente a esta actividade, pelo gozo que me dá. Os aeroportos são sem dúvida o meu local preferido para esta práctica. Há sempre situações caricatas, curiosas, interessantes ou que, no mínimo, me despertam a atenção e me deixam a divagar quanto 'a história daquelas pessoas, o que terá acontecido antes e o acontecerá a seguir, o que até ajuda a preencher as inevitáveis horas de espera entre transbordos e atrasos de conexões.

Esperar é outra coisa que faço muito, já que acabo por ser sempre a pessoa mais pontual do meu grupo, seja este em Portugal, na Alemanha ou nos USA. E, desconfio que continuará a ser assim em qualquer outro lado do mundo... sinas! :P

Confesso, contudo, que em NY não me custava nada esperar (a menos que fosse no Inverno e estivesse um daqueles frios de rachar). As ruas da cidade são como um aeroporto gigante, onde se estão sempre a cruzar nacionalidades, diferentes culturas e a ocorrer das mais variadas peripécias. Nos posts que fui colocando ao longo do tempo encontram várias dessas situações mas, a que vou relatar agora, decorreu ontem.

E' mesmo! Esperar aqui também não se revelou tão desinteressante assim. Ontem fui jantar com um amigo a Central Square, zona muito cool na área de Cambridge, mas onde também se encontram algumas personagens típicas e caricatas: os bêbados. Acampam nos bancos dispersos ao longo da Mass.Av. e, sem incomodarem ninguém, fazem a festa entre eles. Cada um mais torto e cambaleante que o outro partilha em grandes baforadas etílicas as mais variadas doideiras que lhes passam pela cabeça, enquanto os outros escutam atentamente para depois todos se rirem ao mesmo tempo. Como disse, é uma festa!

Para não variar, fiquei um bocado 'a espera do meu amigo e entretive-me a observá-los. A determinada altura, entre os vários grupos de bêbados, houve um que me despertou especial atenção devido aos movimentos amplos e estapafúrdios que uma das bêbadas fazia com os braços, ao mesmo tempo que expressava esgares de deconforto com a cara rosada, piscava os olhos e quase mandava um sopapo na bêbada sentada ao lado dela que, completamente alienada da situação, não se apercebia do quão valentemente se arriscava a ser "knockouteada". Só esta cena já me estava a dar vontade de rir mas perceber porque gesticulava de forma tão veemente aquela mulher fez com que soltasse uma gargalhada no meio da rua.

Todo aquele aparato se deveu ao facto de um ciclista ter parado naquele passeio, mesmo em frente 'as bêbadas e, enquanto prendia a bicicleta, não se ter lembrado de desligar a pequena luz de presença que piscava na frente. Tal era a carraspana com que a mulher estava que aquela ténue luz a estava a encandear. Balbuciou algo, terminando com "please" e o ciclista prontamente desligou a luz e pediu desculpas. Embora grogue, a mulher consegui ainda entaramelar um "thank you"!" enquanto que os espasmos faciais e os gestos continuavam. Acho que nas condições em que estava não conseguia fazer tudo ao mesmo tempo mas foi curioso verificar que ser educada estava nas prioridades dela.

1 comment:

eduarda baptista said...

a boa educação tb pode estar num simples bebado sem abrigo...quem sabe se outrora não fora alguem importante que passava nas ruas e nem dava pela presença de tais caricatas criaturas...a gravata e os punhos brancos não significam nada...
post bem caricato e que me deixou a pensar....obrigada!!
jokas meb