3.26.2007

A Saga

Tudo começou com a minha ida a Portugal, em Dezembro.

Como toda a mãe que se preze, sempre que a filhota parte para terras além-mar, esta tenta mandar-lhe na bagagem daqueles miminhos que, sabendo o quanto custa chegar para o vazio de uma casa sem família, beijos e abraços, irão de certa forma colmatar um pouco essa carência.

Assim, sempre que vou ‘a Terrinha, durante os dias que lá passo, volta e meia ouço a minha Madalê dizer-me “filha, vou pôr isto para levares!” ou “vou comprar isto para a minha Nês se consolar quando estiver na América!” (e vem-me ‘a lembrança, com carinho, a forma engraçada como abre os olhos quando diz “Ameeeerica”, para logo a seguir sorrir e me abraçar).

Sabendo que de manhã nada mais me satisfaz para pequeno-almoço que um valente copo de leite branco e puro acompanhado de bolachas de chocolate escuro, prontamente comprou 10 pacotes de Morenazos, bolachitas do LIDL semelhantes aos Filipinos, mas mil, milhões, trilhões de vezes melhores.

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“Já tenho as bolachinhas para o teu “piqueno-almoço”!” disse-me ela enquanto, orgulhosamente, me exibia o saco plástico cheio das embalagens vermelhas. Mas cheio mesmo: eram 10 pacotes!

Com tamanha devoção os guardou para que não fossem consumidos e na hora da partida não fossem esquecidos que, acabaram mesmo por ficar muito embrulhadinhos num qualquer saco na dispensa.... esquecidos!

Como ela diz, levei na mala o suficiente para abrir um restaurante: bacalhau com grão, língua estufada com ervilhas, massa de coelho, cozido ‘a Portuguesa (note-se, estes quatro já cozinhados e prontos a comer), chocolates, mel, latas de atum, pães-de-leite, chouriços, empadas, azeite, rissóis, croquetes (sim, isto tudo e, como costume, tudo passou incólume e chegou, são e salvo ‘a minha cozinha) mas, mesmo satisfeita com mais um sucesso do famoso contrabando Tuga, nada me conseguiu consolar assim que percebi que os meus mui e mais que queridos Morenazos ficaram em terras Lusas.

Virei e revirei as malas, pensando que a Maezinha os tivesse enfiado algures sem eu ter reparado. Mas, não… a dura verdade é que os coitadinhos ficaram por lá sozinhos e abandonados, e eu abandonada e sozinha deste lado fiquei!

Bem, chega de lamúrias! – pensei – e logo comecei a engendrar possíveis soluções. Sendo o Natal uma altura em que bastante gente vai a casa, pensei em quem ainda poderia estar em Portugal que eu conhecesse e que, no seu regresso para Boston, me pudesse trazer os “my precious”.

Assim, toca de falar com a Madalê. Logo que atendeu e percebeu que era eu (e, obviamente, após me perguntar como foi a viagem, se correr tudo bem e tal) logo do outro lado da linha ouvi um prolongado e lamuriento:

- “ooohhhhh filha!!! os teus morenazos!!”
- “Pois é, Madalê, mas não te apoquentes. Fulana tal ainda aí está, o número de telefone é o tal, tenta ligar por favor e explica bem a situação (se bem que, por muito bem explicadinha que fosse, acho que qualquer pessoa acharia que eu não podia estar boa da carola a dar-me a tanto trabalho por causa de umas bolachas. Mas, mais uma vez ressalvo: não umas quaisquer. Os MORENAZOS!!)… pode ser que ela os possa trazer”
- “Roger. Mensagem recebida!!” e de imediato a minha Madalê começou logo a bulir.

Fiquei esperançosa de que no dia seguinte me dissesse: já está tudo tratado mas, devido a excesso de bagagem (mal que se apodera de todo e qualquer um que regresse de casa) o transporte dos Morenazos não seria possível.

“C’oa breca” – pensei – mas não desanimei.

Revolvi as ideias mais um pouquinho e, Plim!, lembrei-me de outra pessoa que viria daí a uma semana.

Novo telefonema para a Madalê, nova troca de instruções, “Roger” e lá foi a Madrecita tratar de outra missão. Mais uma vez, porque o possível destinatário não se encontrou disponível quando julgou que estaria, a transação não foi possível e lá ficaram os Morenazos em águas-de-bacalhau, ou seja, em Portugal (que não são bem águas de bacalhau uma vez que não os há na nossa costa... mas vocês entendem-me, não é?).

Desde então, passei Janeiro e Fevereiro tristíssima, a suspirar pelo Morenazos além-mar e sempre a tentar descobrir novas maneiras de os trazer até cá, uma vez que tão cedo não iria eu até lá. Nem as Milano , que eu adoro, pela manhã a acompanhar o meu copo de leite conseguiram suprimir a dor. E eu pensava e pensava "como raio vou trazer os Morenazos para cá!?", até que o André me diz que o pai dele está para vir a Boston.

“Epá, é oportunidade a não perder!!”. Meto a minha mãe ao barulho, a minha irmã também entra na festa (escusado será de dizer que o André nem teve tempo para dizer quer não), entra a secretária do pai do André, telefonemas para aqui e para ali, tudo a mexer e a dar-a-dar para despachar os Morenazos (missão bem mais importante que aquela do soldado Ryan, por exemplo. Vejam só a dimensão da coisa! Oscar garantido.) mas o destino era mesmo para que ainda não fosse desta. Desencontros e faltas de tempo fizeram com que, mais uma vez, a esperança morresse na praia.

- “Oh, André!!!” – lamentava-me eu no ombro dele - “Estivemos quase!! Quase!!!”
- “Não te preocupes! “ – e fazia-me festinhas na cabeça – “para a semana vou eu a Portugal!!!”

Rejubilei.

Abro um parêntesis para dizer que, embora seja um poço de boa vontade e tenha um coração do tamanho do mundo, o André é a pessoa que eu menos esparava que me pudesse salvar nesta situação, uma vez que anda sempre numa lufa-lufa, numa roda viva, extremamente ocupado com tudo e mais alguma coisa e é sempre dificílimo manter uma conversa com ele por mais de 2 minutos… que fará marcar alguma coisa.

Adiante.

Eu estava tão desesperada e, percebendo que ele entendia a minha dor (só um maluco para entender outro maluco… cada um tem a sua pancazita), pensei: vamos a isso! alguma vez há-de dar.

Telefonemas, encontro no aeroporto entre os meus pais e o André (é Milagre!!! Funcionou!!!), troca da mercadoria, regresso do André e email recebido:

remetente - André
receptor - Inês
mensagem - “já cá estão sãos e salvos!!”

E eu saltava e ria, pulava para o pescoço do David aos guinchinhos:

- Chegaram!! Chegaram!!! – e o David pensando que eu me tinha passado de vez.
- Calma ‘mor! Calma! (coitadinho, maridinho sofre!)

E segui toda feliz para o lab no dia seguinte, onde passei a esperar a cada hora, cada minuto, cada segundo que o André me entrasse pela porta adentro com o pacote dos Morenazos.

Um dia, dois dias, três dias… e nada de André. Já pensava em telefonar-lhe quando me aparece a meio de uma experiência. Larguei a pipeta, tirei as luvas, rasguei a bata, entornei as soluções, passei por cima das bancadas como se de um filme de Hollywood se tratasse, para estacar em frente ao André:

- E então!?!?! – enquanto perscrutava minuciosamente tudo ‘a volta dele não vislumbrando qualquer embalagem.
- Opah, comi os Morenitos!!
- Morenazos!!! – corrigi imediatamente – deixa-te lá de tretas e passa para cá a “droga” – repliquei divertida.
- Inezita, hoje não as pude trazer (isto já depois de 3 dias de espera) – disse ele com tacto e carinho, já adivinhado o colapso da Je - Estão em minha casa, mas nem fui lá, não dormi, trabalhei a noite toda, o meu carro foi roubado (é que para além de ocupado tudo, mas tudo mesmo, lhe acontece. Até me surpreende como é que não ficaram com os Morenazos na alfândega!), fiquei adoentado, blá, blá, blá…

E então apercebi-me que tinha passado para um segundo estágio do desafio: se a primeira fase correspondeu a trazer os Morenazos de Portugal para Boston, a segunda fase, e ainda mais difícil, seria trazer os Morenazos da casa do André para o lab.

Mas, se eu já tinha esperado tanto tempo, não seriam agora uns dias ou uma semana (mais que isso não, ok?) que me fariam desesperar… e eu sei que o André tem as melhores intenções, portanto, bastaria falar-lhe ao coração uma ou duas vezes por dia:

- “, mori! Trouxeste? Não!?!? Ohhh… fico tão tristinha!!!” – e do outro lado do telefone ele poderia adivinhar o meu beicinho e os olhinhos de Pussycat (gato do Shrek).

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E por aí foi até que, finalmente, na 4a feira passada lhe amoleci o coração o suficiente ao ponto de ele se organizar um tiquinho e recebi o tão atribulado pacote.

Qual tesouro, assim que o vi, com os olhos a brilhar, nem o desembrulhei logo (vinha dentro de uma caixa de sapatos, embrulhada em papel de oferta). Quis saborear aquele momento tão esperado.
Apreciei-lhe o peso, adivinhando as delícas que estariam lá dentro. Surpreendida com o peso algo excessivo, abanei e escutei, pressagiando que a minha Madalê teria feito das suas:

- pesado para serem só bolachas não – dizia-me o André curioso, agora também já super envolvido na história.
- é!…. – e continuava a manuseá-lo – vou abrir quando chegar a casa.
- não abres agora?!?! – respondeu surpreendido, a rebentar de curiosidade
- ‘mori, prometo que assim que abrir te telefono a dizer o que tem cá dentro!

Passei a tarde a pensar naquele momento glorioso que seria, ‘a noite, juntamente com o David, abrir O pacote. E assim o fizemos (salvo seja).

Qual ritual, tirei o papel, cortei o baraço, tirei a fita-cola que envolvia a caixa dos sapatos e…

(neste momento já podem adivinhar que se ouviu música algelical e que saiu uma luz super forte lá de dentro, ‘a medida que o tesouro se revelava)

Mais que os pacotes de Morenazos, ‘a nossa frente estavam, nada mais nada menos do que: tabletes e tabletes de chocolate (Nestlé, Milka, Ritter Sport, Toblerone, Serenata de Amor e sei lá que mais…), latas de atum Bom Petisco, uma embalagem de bolachas de água e sal, outra de óleo Johnson verde – hhmmm, que tem Aquele cheirinho!! o daqui cheira mal!! – vejam por vocês:

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Miminhos da mamã!! Os melhores do Mundo!
Que espectáculo. Celebrei tanto que o David só dizia:
- tenho que te forografar! Os teus pais têm que ver isto (por motivos de preservação da minha imagem, não as coloco aqui... até tenho vergonha :P)

E digam lá, se não valeu a pena a espera! Em vez de uns mísero Morenazos (oh p’ra ela! Agora que tem resmas e resmas de coisas boas, os Morenazos já não lhe chegam!! Mal agradecida) !! Porca!) recebi tudo, TUDO isto… e ainda mais a surpresa, do inesperado, do que será?

Claro está que telefonei ao André para lhe revelar o segredo de Fátima:

- Quê?!?!? Eu trouxe isso tudo?!?!?! Miúda, ainda ia preso!!! Depois terias que me ir levar Morenitos ‘a prisão.
- Morenazos – corrigi – não levo ‘a prisão mas levo amanhã para o lab!


E viva a Madalê!!
E viv'ó André!
E viv'ó David também coitado. 'As vezes tem que ter uma paciência de santo, hehehe!

E um final… Feliz!!! :)

8 comments:

Fadalê said...

Madalê para aqui, André para acolá,pipetas e soluções em desvario. No meio disto tudo......e o pai???não conta??

Madalê said...

Querida, depois de tanto sofrimento e voltinhas, finalmente eles chegam ás tuas mãos.
Bem haja o André. Prometo que quando aí for, ele alomçará connosco uma comidinha bem portuguesa, feita por mim

Violante said...

Vivo no país do LIDL e nunca provei um Morenazo...:(

se calhar também preciso de uma odisseia dessas, lol..

beijocas e bom proveito!

Anonymous said...

Se são melhores do que os Filipinos...tenho de experimentar!Como percebo bem a tua "pancada".Tão sofro desse mal achocolatado!.Beijitos

Ivone

bruno said...

Fiquei com vontade de comer bolachas depois de ler a historia... :-)

Nunca provei essas.

Anonymous said...

Mas as partes que me fizeram rir foram as do "my precious" e " C`oa breca".

Ivone

Anonymous said...

Sugestão: experimenta os morenazos brancos (por dentro são de chocolate) - oh, delícia! Ainda melhores que os outros. NHAM! Compreendo-te completamente =) Fiquei com vontade de chocolatar... Bolas, não posso, estou de dieta.

Anonymous said...

Morenazos rulam! (mas os de chocolate preto :P os outros enjoam)
Compreendo perfeitamente a tua "gula".
No outro dia comprei filipinos e... bem... sabiam a farinha ou assim... Morenazos é que é!