5.30.2005

Inocência

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Desde cedo se revelara uma criança diferente.

Na família isso foi notado de imediato.
O avô todos os dias se deliciava a observá-la, num misto de curiosidade e espanto, quando, ainda bebé de meses, esta se abastraía de tudo e de todos para se fixar nos poucos segundos que duravam a apresentação de um programa na televisão.
Nada mais existia!
Ficava fascinada pela música e imagens e ainda hoje se recorda do macaco a descascar uma banana, de onde saía uma mulher vestida de vermelho e branco, com calções, cabelos compridos e um chapéu branco, tudo acompanhado de uma música Barsileira. Passada a apresentação, voltava ‘a Terra.

Sempre foi muito observadora. Volta e meia surpreende com memórias que não se julgavam possíveis, de cheiros, imagens, um vestido antigo ou até mesmo a barriga da mãe grávida da sua irmã mais nova.
A personalidade forte e algo difícil também não passava despercebida. Já no infantário acabaria por ser escolhida como “objecto de estudo” para uma tese de psico-sociologia infantil e a professora da escola primária ainda hoje, passados mais de 20 anos, se refere a ela como “A minha aluna!”.
A lógica e raciocínio também lhe eram particulares, acabando por surpreender os pais com as questões mais inesperadas.

Naquele dia, no infantário, a educadora de infância mencionara, pela primeira vez, as noções básicas de sexualidade, adaptadas, obviamente, ‘a tenra idade da audiência. As crianças estavam todas sentadas numa roda, com pernas “’a chinês” e escutavam a Fernanda que, com gestos e expressões suaves, representava com as mãos:

- O Pai põe uma semente na Mãe que depois vai crescer. Cresce dentro da barriga da Mãe e, quando já está grande, dá origem a um bebé, que depois o Sr. Doutor tira cá para fora.

Tinha ficado fascinada a imaginar um bebé pendurado numa árvore, enrolado na barriga da Mãe.
Pensara nisso durante o dia todo.
‘A noite, durante o jantar, interrompeu os pais:

- A Fernanda hoje explicou como é que os bebés aparecem na barriga da Mãe mas, fiquei com uma dúvida!

Os pais entreolharam-se, ‘a espera do que viria dali:

- Ah sim! Que giro! Então o que não percebeste? – respondeu o pai prontamente.
- Quando o Sr.Doutor me tirou de dentro da barriga da mãe, ao espreitar lá para dentro não viu a Mãna?

Se esta questão era já por si bastante original, mais inesperado foi o que se sucedeu. A sua irmã mais nova, que até então se tinha (parecia) mantido alheia ‘a conversa, poisou os talheres no prato e, com o ar mais sapiente deste mundo, responde do alto dos seus 3 anos:

- Não, porque eu estava no Barreiro... e tu nasceste no Porto!

Palavras para quê?
Quem sai aos seus....

2 comments:

Ana Nascimento said...

lindo!!! Adorei a história!

∫nês said...

Hhhii, ja nem me lembrava disto. Obrigada pela recordação :)