3.04.2006

A queda de um Anjo

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Vi esta notícia e confesso que me incomodou. Fiquei, assim... preocupada, como se de uma pessoa que eu conhecesse se tratasse e a quem nada de mal quero que aconteça. E, ao mesmo tempo, apanhada de surpresa, como se se tratasse da queda de um anjo, algo inimaginável e inconcebível dentro dos meus parâmetros.

O que é facto é que a Maria João Pires foi sempre daquelas pessoas que marcou uma presença forte na minha vida, muito embora dela só conheça a obra musical e o que passa na comunicação social. Tendo estudado piano durante vários anos, Maria João Pires foi sempre um dos nomes grandes que me habituei a ouvir, associado ao horizonte que qualquer pianista deseja alcançar. Acho-a fantástica, excelente, inimitável.

Lembro os dois momentos em que me cruzei fisicamente com ela como se fosse hoje.

Em Lisboa, num recital conjunto com a Eunice Muñoz, escutámos o piano aquoso e fluído e a voz inconfundíavel de Eunice recitar poemas de forma expressiva e sentida. E viajámos. Escutámos La Voyage Magnifique, de Franz Schubert... e de facto viajámos. Foi dos momentos musicais que mais me emocionaram até hoje.

Outra vez, de regresso da Alemanha. Em Frankfurt deparo-me com a sua figura pequena e modesta mesmo 'a minha frente. Fiquei apanhada pelo espanto, estupfacta e vidrada. Seguimos no autocarro que nos levaria ao avião e durante aquele pequeno percurso, observei tudo, com uma atenção feroz. As roupas simples, os gestos calmos, as rugas de expressão no canto dos olhos e dos lábios, o cabelo curto. Rodeava-a um perfume leve... quase que silvestre. Apoiávamo-nos ambas no mesmo poste, a mão dela segurava acima da minha. Prescrutei aquela mão mágica: a mão direita, os dedos, pequenos, as unhas curtas, a pequena tatuagem em forma de golfino, azul, discreta sobre o pulso. Estava completamente fascinada... e completamente esmagada por aquela presença.

Foi a única vez que me lembro de me ter deparado com pessoas conhecidas e não conseguir balbuciar palavra, não conseguir dizer nada. A, note-se, A Maria João Pires estava de facto ali, ao pé de mim. E senti um respeito e uma veneração tão grandes que não consegui expressar nada. Pois para mim ela fora sempre algo distante, de outra realidade, quase idílica e divina.

Mas é, claro, de carne e osso.
Mas, só hoje, mesmo depois de a ter tido a centímetros de distância, me apercebi dessa verdade.

2 comments:

madalê said...

Mais uma vez vamos ter problemas de consciência, por tão mal tratarmos os nossos artistas. Mesmo pérolas como esta, tão rara, pouco apoio e estima lhe é dado.
São outros "Futebois"

Fadalê said...

Lembro-me de a ter visto a fazer uma pequena diatribe ao tocar Bach,num programa de tv (cenas privadas da sua vida) de costas para o piano, ou seja, com os braço projectados para trás. Já nessa altura a nossa Diva estava ao nível de hoje...